Laboratórios Associados: Accountability, omissão e regabofe

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Torgal
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Laboratórios Associados: Accountability, omissão e regabofe

Mensagem por Torgal » domingo dez 10, 2017 10:59 am

Abaixo link do último e interessante relatório do Laboratório Associado Instituto de Medicina Molecular:
https://imm.medicina.ulisboa.pt/files/4 ... t_2016.pdf

Convido os Colegas a compararem este relatório com o último relatório de outros laboratórios Associados ! Pelo menos com os daqueles que disponibilizam relatórios online, pois se o discernimento não me falha na consulta que fiz nem todos o fazem, o que é uma peculiar forma de prestarem públicas contas dos milhões de euros de financiamento que receberam do erário público. Os laboratórios associados dividem-se assim em três tipos: aqueles que publicitam relatórios muito completos que comprovam o bom uso dos dinheiros públicos, aqueles cujos relatórios se resumem a meia dúzia de páginas e factos dispersos e os outros que nem se deram ao trabalho de colocar online esses relatórios.

Destaque para a Fig. 1 na página 14 "iMM Applications and Secured Competitive Funding". Seria boa ideia que similarmente as restantes unidades, ou pelo menos todas aquelas classificadas com Excelente também tornassem pública a informação sobre o número de candidaturas submetidas e aprovadas, para se ter uma ideia não só do grau de esforço mas também de eficiência das mesmas.

Como é evidente a tabela no fundo da página 19, e bem assim a informação contida nas páginas 20, 21 e 22 não poderão constar do futuro relatório que está unidade irá submeter no âmbito da avaliação em curso porquanto o RAFU não permite qualquer referência a indicadores bibliométricos, assim estranhamente colocando no mesmo patamar aquelas que os têm e os podem mostrar e aquelas que os não têm. Interessante também o conteúdo a páginas 468 e seguintes sobre startups a sério e não do tipo daquelas centenas de milhar referidas no email abaixo.

Fernando Pacheco Torgal
All the forces in the world are not so powerful as an idea whose time has come -- Victor Hugo
http://fcmconference.org/img/CambridgeD ... usness.pdf
If I could make everyone in the world see one film, I'd make them see Earthlings -- Peter Singer



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De: F. Pacheco Torgal
Enviado: 14 de Fevereiro de 2017 16:08
Assunto: Estranhos números que dão que pensar

Abaixo links e números disponíveis no site da FCT, no âmbito de uma iniciativa oficial https://www.study-research.pt/ptque "é promovida pela área governativa da ciência, tecnologia e ensino superior, em articulação com a Direção-Geral do Ensino Superior, a Fundação para a Ciência e a Tecnologia e a Secretaria de Estado do Turismo" http://www.fct.pt/noticias/index.phtml. ... %E2%80%9D,

1: Desde de 2007 foram criadas mais de 300.000 novas start-ups, 31.000 por ano
2: Nos últimos 25 anos, a produção científica portuguesa aumentou 35 vezes
3: Quase 40.000 Investigadores em tempo integral
4: Nos últimos 25 anos, o número de patentes registadas na Europa aumentou 45 vezes


Os factos abaixo dão porém uma outra visão da realidade:

1. sobre start-ups:
O "estudo" da Informa D&B com o título Empreendedorismo 2007-2015 refere que em Portugal foram criadas mais de 300.000 startups desde 2007, porém este "estudo" define como startup todas as empresas com menos de 1 ano de actividade ! A revista Forbes tem uma muito definição muito mais restritiva e rigorosa “A startup is a company working to solve a problem where the solution is not obvious and success is not guaranteed” já a Wikipedia define-as como “an entrepreneurial venture which is typically a newly emerged, fast-growing business that aims to meet a marketplace need by developing or offering an innovative product, process or service”, definições que muito dificilmente permitem incluir cabeleireiros, oficinas de bate-chapa, cafés, restaurantes e similares que foram contabilizados no “estudo” acima referido para atingir o extraordinário número de mais de 300.000. Até podem ter sido criadas 300.000 novas empresas desde 2007. Até podem por uma questão de simplificação chamar start-ups a cabeleireiros, oficinas de bate-chapa, cafés, restaurantes, bares e similares (Note-se que o sector do alojamento e restauração foi o terceiro com mais empresas criadas.) Nada contra. Porém o facto inescapável é que a esmagadora maioria destas respeitam a emprego não tecnológico e muito pouco qualificado não se percebendo por isso porque é que a Fundação da Ciência e Tecnologia se associa a uma acção de promoção ligada à criação destes negócios pois isso só pode servir para confundir a comunidade científica.

2. sobre publicações científicas:
Faz muito pouco sentido fazer comparações de publicações a 25 anos, mas mesmo assim a comparação das publicações referenciadas na base Scopus revela um crescimento de 19 vezes e não 35 vezes. Pelo que só contabilizando publicações de pouca qualidade se pode eventualmente atingir o tal crescimento de 35 vezes. Por outro lado uma pesquisa na base Scopus revela que Portugal produziu durante o ano de 2016 um total de 22.300 publicações, valor inferior a 2015 e mesmo a 2014 quando se produziram 23.000 publicações em cada ano, já em 2013 se produziram em Portugal 22.000, ou seja a produção científica relevante recente não só não subiu como até baixou.

3-sobre número de investigadores:
Para se chegar a quase 40.000 investigadores é necessário incluir vários milhares de alunos, milhares de docentes que têm apenas a licenciatura e também vários milhares que não possuem mais do que o grau de Mestre. Muitos destes nunca publicaram um único artigo numa revista internacional ou qualquer outra publicação de qualidade similar. Se o SCTN pudesse efectivamente contar com 40.000 investigadores a tempo integral não seria expectável que aqueles produzissem em média no minimo 40.000 artigos SCI a cada ano ?

4. sobre patentes:
Dizer que as patentes em Portugal cresceram 45 vezes significa muito pouco se o ponto de partida for quase nulo. A verdade é que as estatísticas da WIPO revelam que o rácio patente por cada milhão de doláres gasto em I&D publicações para Portugal é inferior por exemplo ao da Coreia do Sul em aprox. 30 vezes. Por cada milhão de dólares gasto em I&D o Japão produz aprox. 20 vezes mais patentes. O país mais próximo do desempenho de Portugal é Espanha que para o mesmo nível de investimento em investigação produz quase o dobro das patentes. Além disso e de acordo com o European Innovation Score Board 2016 Portugal está ao nível de Malta, do Chipre ou da Lituânia e 1000% abaixo do desempenho da Suiça no indicador Pedidos de patentes !

Fernando Pacheco Torgal
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