Uma academia alienada ou já em estado comatoso ?

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Torgal
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Uma academia alienada ou já em estado comatoso ?

Mensagem por Torgal » sábado jun 24, 2017 9:54 am

Agora que uma semana já passou sobre o indescritível evento ocorrido no passado dia 17 de Junho permito-me fazer um breve comentário sobre o mesmo. A miséria moral neste país é de tal ordem, que aqueles que na referida zona tiveram de sair da sua habitação para evitarem mal maior, quando retornaram à mesma constataram terem sido visitados por alguns amigos do alheio. Quando a polícia judiciária descobrir quem foram, seria extremamente útil que, para além da rotineira análise legal da praxe que o sistema justiça na devida hora tramitará, também uma análise psico-sociológica fosse necessária, para se perceber quais as causas que justificam até que ponto um país pode descer tão baixo. Seja como for a referida análise só ficará completa se também for feita a todos aqueles que nas últimas décadas tiveram responsabilidades no Governo deste país, pois que foram os muitos maus exemplos destes últimos que ajudaram a construir o referencial moral dos primeiros.

Muito infelizmente tão pouco a academia se pode reclamar isenta de qualquer culpa tal é o nível de omissão que por lá grassa o qual é especialmente grave por parte daqueles que até têm um estatuto reforçado de emprego, precisamente para que possam ter opiniões especialmente criticas sem por isso serem prejudicados. Felizmente que neste país tempos houve em que ilustres membros da academia Portuguesa​, não contaminados com os vírus da passividade, da omissão, da indiferença e até da cobardia,​ se insurgiram publicamente contra os desmandos de um certo poder politico tendo por isso ​perdido o emprego e até sido perseguidos http://maismemoria.org/mm/2011/11/25/no ... tado-novo/
A esses a academia e o país muito devem.

No mês passado, no dia 24 de Maio, o jornal Público trazia artigo particularmente interventivo, especialmente critico mas de grande valor de um Professor do IST, João C. Seixas, sobre a total omissão das universidades Portuguesas relativamente ao problema concreto de Almaraz. Escreveu ele que: "as universidades, cuja missão passa seguramente por promover uma discussão séria e esclarecida sobre assuntos da sua competência, negligenciaram no seu papel social. Ora isto não é um problema menor: se é verdade que as universidades têm de criar e discutir nos meios estritamente científicos o seu conhecimento, não é menos verdade que o seu papel de fomentadores de discussão livre e informada dos assuntos relevantes para a sociedade é absolutamente inalienável e inquestionável"

E no inicio deste ano um historiador Francês, Benjamim Stora, disse que em França os intelectuais desinvestiram da participação em assuntos que tenham a ver com a sociadade e deixou a pergunta "como se pode querer que as novas gerações encontrem modelos de referência se de um lado na politica temos a corrupção e no outro a intelligentsia se refugia no academismo para não se empenhar na coisa pública ?" Lá como cá. Com a agravante de neste país não haver sequer uma imprensa digna desse nome. Há sim, salvo raras excepções, um jornalismo que se limita a fazer fretes ao poder politico e ao poder económico.


Fernando Pacheco Torgal
All the forces in the world are not so powerful as an idea whose time has come -- Victor Hugo
http://fcmconference.org/img/CambridgeD ... usness.pdf
If I could make everyone in the world see one film, I'd make them see Earthlings -- Peter Singer

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